quarta-feira, 28 de outubro de 2015
terça-feira, 27 de outubro de 2015
domingo, 4 de outubro de 2015
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Poema do mês de outubro: "D. Sebastião" de Fernando Pessoa
Louco,
sim, louco, porque quis grandeza
Qual
a Sorte a não dá.
Não
coube em mim minha certeza;
Por
isso onde o areal está
Ficou
meu ser que houve, não o que há.
Minha
loucura, outros que me a tomem
Com o
que nela ia.
Sem a
loucura que é o homem
Mais
que a besta sadia,
Cadáver
adiado que procria?
Fernando Pessoa, Mensagem
Livro do mês de outubro – D. Sebastião e o vidente, de Deana Barroqueiro
Conspiração,
mistério, revelação. Uma complexa intriga palaciana, fielmente retratada,
envolve as vidas das duas principais personagens, el-rei D. Sebastião e Miguel
Leitão de Andrada, desde o nascimento ao desastre Alcácer Quibir.
D. Sebastião e o Vidente é um surpreendente livro de Deana
Barroqueiro, um romance histórico fascinante que apresenta uma nova visão sobre
uma das figuras mais marcantes da nossa história. D. Sebastião é retratado de
uma forma crua, realista, oferecendo uma perspetiva mais humana de um rei
órfão, que viveu a adolescência atormentado pelos seus complexos, um mancebo
visionário senhor de um poder absoluto que o arrastou ao desastre.
Por
sua vez, Miguel Leitão de Andrada, fidalgote de Pedrógão Grande e reconhecido
como vidente, surge como o leal escudeiro de D. Sebastião, com quem desenvolve
uma relação "quixotesca", partilhando todas as vicissitudes que
marcam o destino do rei Desejado. Foi, aliás, a partir da obra de Miguel Leitão
de Andrada - Miscelânea - que Deana Barroqueiro se inspirou para escrever este D. Sebastião e o Vidente, baseando-se
também no estudo comparado de inúmeros documentos históricos portugueses,
espanhóis, franceses e holandeses, num trabalho que a ocupou ao longo de dois
anos.
A
leitura dessas fontes e a paixão que a autora nutre pela época renascentista,
influenciaram de sobremaneira a definição da estrutura de D. Sebastião e o Vidente, a qual segue o modelo dos romances
seiscentistas (dividida em quatro partes, com 150 capítulos curtos). De
sublinhar, ainda, a presença de um narrador que interpela o leitor quase sempre
num registo irónico, pondo em evidência o paralelismo do seu tempo com os
nossos dias.
Tratando-se
de uma obra de grande fôlego, D.
Sebastião e o Vidente apresenta-se com uma linguagem muito cuidada, mas
simples, notando-se a preocupação da autora em refletir, sobretudo através dos
diálogos, o falar, os usos e os costumes daquela época, dando uma cor singular
à obra.
Deana
Barroqueiro nasceu em New Haven Connecticut, nos Estados Unidos da América, em
23 de julho de 1945. Foi essencialmente através da escrita que tomou
consciência do seu ser e se relacionou, comunicando e comungando, com o mundo
que a rodeava.
Licenciou-se
em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, de cujo grupo de teatro
fez parte juntamente com Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Jorge de Silva
Melo e tantos outros, num tempo conturbado mas de contínua mudança que recorda
com saudade e emoção.
Por
vocação, tornou-se professora de Português, fazendo o estágio na Escola
Secundária Passos Manuel, em Lisboa, onde tem concretizado a maioria dos seus
projetos de Teatro e de Escrita Criativa com os alunos, tendo publicado várias
obras com o Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos
Portugueses, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto de Inovação
Educacional.
Deana
Barroqueiro confessa-se uma apaixonada da Língua e Cultura portuguesas, em particular
dos Séculos XVI a XVIII, que estuda há mais de vinte anos, e sendo, por
natureza ou vício, uma contadora de histórias, não resistiu ao desejo de
partilhar, com quem a quiser escutar, essas surpreendentes descobertas das
vidas aventurosas ou trágicas, por isso mesmo tão humanas e próximas, de
personagens históricas que fazem parte do nosso imaginário coletivo.
Publicou
oito romances históricos e dois livros de contos, os quais já se encontram
traduzidos e editados em Espanha, em Itália e no Brasil. No dia 21 de novembro
de 2003, nos Estados Unidos da América, durante o sarau para atribuição de
prémios do Concurso Literário Proverbo, de cujo júri fez parte, a escritora
recebeu um louvor pela Câmara de Newark, em reconhecimento do seu contributo
para a divulgação e promoção da língua e cultura portuguesas entre as
comunidades de emigrantes da América, Canadá e Europa.
É
autora do primeiro livro de ficção editado pela Porto Editora, D. Sebastião e o Vidente e venceu o
Prémio Máxima de Literatura (Prémio Especial do Júri).
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
sábado, 26 de setembro de 2015
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Livro do mês de setembro: "Não contes nada", de Lisa Scottoline
O seu filho vai a
conduzir.
Só veem a mulher
quando já é tarde de mais.
E o pior acontece.
Uma decisão. O futuro
de uma família arruinado. Quando Jake Buckman decide deixar Ryan, o filho de
dezasseis anos, praticar a condução numa estrada deserta a caminho de casa, não
faz ideia das consequências fatais do seu gesto. Na escuridão da noite, aparece
uma mulher a correr vinda não se sabe de onde e a colisão é fatal. Agora Jake e
Ryan têm duas opções: admitir a responsabilidade de Ryan ou seguir para casa
como se nada tivesse acontecido. O que se segue não é um caso clássico de
atropelamento e fuga, mas sim a decisão instintiva de um pai que fará qualquer
coisa para proteger o filho. Até onde deverá ir o sacrifício de um pai para
proteger o filho? E será que alguma família conseguiria suportar o fardo de um
tal segredo?
Lisa Scottoline é autora best-seller de mais de vinte livros. Está publicada em mais de trinta países e tem vendas que superam os 25 milhões de exemplares. Recebeu um Edgar Award e o prémio Cosmopolitan Fun Fearless Female Award. Tem uma coluna semanal no Philadelphia Inquirer, bem como uma série de livros de não ficção escritos com a filha, Francesca Serritella. Lisa foi advogada e vive em Filadélfia.
Poema do mês de setembro
A nuvem veio e o sol
parou.
Foi vento ou ocasião
que a trouxe?
Como se a luz a sombra
fosse.
Às vezes, quando a
vida passa
Por sobre a alma, que
é ninguém,
A sensação torna-se
baça
E pensar é não sentir
bem.
Sim, é como isto: pelo
céu
Vai uma nuvem
destroçada
Que é véu, mau véu, ou
quasi véu,
E, como tudo, não é
nada.
Fernando Pessoa
10 - 9 - 1934
In Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio
& Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine,
2006
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
sexta-feira, 3 de julho de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
Conto premiado no concurso "Quem conta um conto... ao modo de Saramago?!"
A fome mais mortífera
Algures, num lugar cuja existência é
dúbia e até improvável, existia um pequeno país moldado por guerras e
conquistas. A governá-lo estava uma jovem feita da mesma matéria, soberana de
uma monarquia absoluta, conhecida como a “Devoradora de Galáxias”, nome que lhe
fora atribuído pelo povo e a que ela fazia questão de fazer justiça. “Ela podia
devorar o mundo e ainda ter fome”, era o que o povo costumava dizer. A rainha
tinha fome de sangue e luxo, uma sede insaciável de mais e mais. Tais gostos
não saíam baratos a ninguém, especialmente ao povo, que vivia sob a vontade da
Devoradora, mas, apesar de tudo, ela era adorada. Parecia ter uma forma muito
particular de encantar todos à sua volta e sabia, perfeitamente, como manipular
aqueles que de outra maneira se virariam contra ela. Apreciavam o seu “esforço”
para ter um país feliz, e apreciavam ainda mais os banhos de sangue que a
rainha gostava de organizar. A Devoradora adorava fazer execuções públicas.
Essas demonstrações de poder eram algo que lhe dava bastante gozo porque,
afinal, haveria melhor maneira de mostrar a sua soberania do que fazer a cabeça
dos seus inimigos rolar? E eram muitos, esses inimigos. O povo aplaudia,
vibrava com as execuções, esquecia-se de todos os males que o atormentava e
gritava por mais. Da sua cadeira, a Devoradora acenava e ria. “Um belo dia para
uma execução”, dizia sempre, “não há nada melhor para começar o dia”. Ao seu lado,
a sua conselheira acenava ligeiramente com a cabeça, verbalizando uma palavra
de concordância e um elogio à rainha. A rainha lançava um olhar à sua criada
pessoal, que se limitava a acenar com a cabeça. Que escolha tinham elas, se não
queriam acabar com a cabeça dentro de um cesto? Eram belos dias de paz para
todos os ignorantes, dias de abundância e sem fome.
Um dia, durante uma dessas execuções,
um membro da populaça subiu para junto da guilhotina, dirigindo-se à multidão.
Gritava palavras contra a rainha, contra a sua forma de governar e contra o seu
estilo de vida. Acusava-a de se alimentar da miséria dos outros, do sangue que
derramavam. A rainha revirou os olhos. Aquele não era o primeiro que tentava
manchar o seu nome e, certamente, não seria o último. No entanto, ao observar a
forma como a pessoa falava e, especialmente, a forma como o povo ouvia, um certo
nervosismo pareceu tomar conta dela. Os que costumavam tentar causar problemas
não eram tão articulados. A conselheira assegurou-a de que tudo seria
resolvido, que era apenas um revolucionário medíocre a tentar arranjar
problemas e que não havia razão para se preocupar. A rainha, no entanto, não
ficou convencida e ordenou que aquela pessoa fosse imediatamente executada.
Antes de os guardas chegarem a ele, este virou-se para a rainha, falando
diretamente para ela. Disse apenas uma simples frase: Nós sabemos. A Devoradora
fez um ar confuso, perguntando-lhe o que é que ele poderia saber fosse do que
fosse. O indivíduo limitou-se a sorrir, fazendo uma vénia. “Longa vida à
rainha” foram as últimas palavras antes do carrasco o agarrar e levar para a
guilhotina. O sorriso desapareceu dos lábios da Devoradora. A criada e a
conselheira apenas observavam, lançando olhares nervosos à sua soberana. A fome
da rainha estaria saciada por pouco tempo.
Este episódio perturbara a Devoradora mais do
que ela gostaria de admitir. Apesar dos seus esforços para manter uma certa
postura, sabia que a realidade era muito diferente daquilo que aparentava. O
reino estava na miséria devido aos gastos luxuosos, e ela estava ciente dos
revolucionários prontos a tirar-lhe a coroa ao mais pequeno deslize. Pediu
conselhos à conselheira que lhe garantiu que estava tudo sob controlo. A sua
criada pessoal apenas observava, calada. A rainha mantinha-a cada vez mais
junto de si.
A Devoradora decidiu que precisava
urgentemente de se proteger. Os seus inimigos estavam a ganhar terreno e isso
não podia acontecer. Decidiu mandar chamar o rei do país vizinho, soberano de
um país rico, amigável e, mais importante que tudo, poderoso. Recebeu o rei da
melhor forma, com sorrisos amigáveis e boas maneiras. O rei ficou encantado e,
quando a hora de fazer o acordo chegou, a rainha estava certa que conseguiria o
que queria. Pediu a todos que saíssem, exceto a sua criada. O rei perguntou se
não seria melhor esta sair, visto que podia revelar a conversa a terceiros. A
rainha riu e assegurou-o que não tinha de se preocupar, tudo o que dissessem
não sairia daquelas paredes. A Devoradora apresentou a sua proposta: faziam um
casamento arranjado, uniam os reinos, e ambos beneficiavam com isso.
Assegurou-o que não era uma questão de amor mas sim de necessidade, ele poderia
ter as amantes que quisesse e a única coisa que a rainha pedia era que ele a
apoiasse nas suas causas. O rei, para surpresa da Devoradora, não aceitou.
Disse que tinha alguém com quem pretendia casar, alguém que realmente queria a
seu lado e nem a aliança com a famosa Devoradora de Galáxias o faria abdicar. A
rainha ficou furiosa, um sentimento de humilhação a crescer nas suas veias.
Como se atrevia ele a recusar termos tão favoráveis? Com o ego ferido, mandou o
rei embora e ordenou que fossem buscar a tal rapariga o que rei tanto adorava.
A rapariga foi levada à sua presença alguns dias depois e, para surpresa da
rainha, não passava de uma simples rapariga do povo.
A Devoradora examinou-a com atenção.
A pobrezinha tremia de medo perante ela. Não havia nada de especial nela, não
era rica, não era especialmente bonita, nada. Porque é que o rei gostava tanto
dela? Porque é que ele preferiria alguém como ela quando podia ter uma rainha?
Perguntou-lhe o que fazia dela tão especial e, inocentemente, a rapariga
respondeu que não sabia. A resposta da plebeia contribuiu apenas para aborrecer
ainda mais a rainha. Virando-se para a sua conselheira, ordenou que a rapariga
fosse executada de imediato. A conselheira olhou para a sua rainha,
interrogando-a se seria realmente uma boa ideia. Iria provocar uma guerra, uma
revolução! O rei nunca deixaria tal coisa passar impune! No entanto, a rainha
não quis ouvir. Se ela não podia ter o que queria, então quem a humilhara
também não. Ela estava faminta e iria alimentar-se.
Quando se realizou a execução da rapariga, o
povo não aplaudiu. Um borborinho estranho tomou conta da praça quando a
multidão murmurava entre si. Até então a rainha tinha apenas executado, pelo
menos publicamente, os seus inimigos e os inimigos do país, mas agora virara-se
contra os seus, contra uma rapariga inocente. A multidão pareceu aperceber-se
da natureza da mulher que se sentava no trono do país em que viviam e, de
repente, o peso da reprovação pesou sobre os ombros da rainha. A criada
observava-a, calada, vendo nos seus olhos algo que nunca vira: medo. Tudo
estava prestes a mudar por causa de um simples ato de egoísmo. O buraco no seu
estomago pareceu ficar mais fundo.
As manifestações começaram não muito depois
disso. Parecia que bastara uma pequena faísca para que tudo o que a Devoradora
tinha trabalhado tanto para alcançar fosse consumido em chamas e lhe fugisse
por entre os dedos como água. Então era isto que os seus súbditos chamavam de
retribuição? Ela que fora tão gentil para eles, e agora eles faziam um
escândalo por causa de uma simples rapariga morta! Absurdo, pensava ela, cega
pelo seu ego, não percebendo que era muito mais do que isso. Estava tudo a vir
ao de cima: o estado dos cofres do país, a verdadeira miséria do povo, tudo. A
rainha não compreendia como ela tinha mantido tudo em segredo, tudo fechado a
quatro chaves. Lembrou-se das palavras do homem naquele dia na praça: “Nós
sabemos”. Apercebeu-se que alguém dentro dos assuntos tinha partilhado essa
informação, mas agora era tarde demais para fazer fosse o que fosse.
Amaldiçoou-se a si própria e à sua estupidez por confiar que a sua fachada
duraria para sempre. O povo pareceu aperceber-se das suas próprias condições,
que a rainha lhes tinha mentido vezes sem conta sobre o estado do país e que
ela era, na verdade, uma tirana faminta de caos e crueldade. Os grupos
revolucionários começavam a juntar apoiantes e, juntamente com o exército do
rei que a Devoradora tinha ofendido, destruíram os aliados da rainha um por um.
À medida que os dias passavam, parecia haver
mais e mais problemas. Era impossível sair do palácio, era demasiado perigoso.
Os revolucionários tinham cada vez mais apoiantes e os que se mantinham do lado
da rainha estavam a ser dizimados A sua conselheira tinha fugido, imaginava
ela, e os restantes fugiam aos poucos com medo de serem levados quando o
castelo fosse tomado pelos revolucionários. Em breve, estava sozinha naquela
luta, como um animal ferido e encurralado pelos caçadores.
Sozinha, sentada no seu trono, a Devoradora
pensava. O que podia ela fazer? Por muito que pensasse, não chegava a uma
conclusão. Era tarde demais. A sua imagem estava arruinada por causa de um erro
idiota, por achar que ainda havia espaço de manobra para os seus caprichos. A
sua fome tinha sido o seu pecado. Ao seu lado, a criada, a única que se
mantivera do seu lado, mantinha-se quieta, sentada, a observar a rainha. Lá
fora, o som dos revolucionários fazia-se ouvir, cada vez mais perto, cada vez
mais aterrador. De repente, o som do portão principal a ser arrebentado ecoou
pelas paredes do castelo. A Devoradora entrou em pânico. Ela não esperava que
eles viessem atacá-la, diretamente, tão cedo. Se a multidão tinha entrado no
palácio, já não havia nada que a protegesse, não tinha para onde fugir.
Apercebeu-se que estava na hora de fazer alguma coisa se quisesse sobreviver.
Fazer algo que já planeara há muito tempo no caso das coisas correrem
terrivelmente mal. Agarrou no braço da sua criada e arrastou-a consigo. Levou a
rapariga para o quarto e ordenou-lhe que tirasse as vestes de criada. A
rapariga, apavorada, obedeceu, revelando a sua cara normalmente coberta pelo
gorro que todas as criadas usavam. A Devoradora teve a sensação de estar a olhar
para um espelho enquanto examinava a cara da irmã gémea, algo que não via de
forma tão clara há muitos anos.
As duas irmãs tinham sido criadas
naquele mesmo palácio, mas a Devoradora sempre fora mais favorecida. A
deficiência verbal da outra irmã, a sua mudez, fizera com que esta fosse posta
de parte toda a sua vida. Fora-lhe dito vezes sem conta que nunca iria governar
o reino, que iria viver sempre na sombra da irmã, uma inútil. Fora com essa
mentalidade que crescera, e a pobrezinha mantinha-se sempre submissa, sempre
sem poder verbalizar os seus pensamentos. Poucos sabiam da sua existência, e os
que sabiam pareciam não se importar. Quando os pais morreram e a Devoradora
subiu ao trono, foi decidido que a irmã morreria, não de forma literal, mas
para que a sua existência fosse esquecida. Os retratos foram queimados e foi
anunciado àqueles que sabiam da sua existência que esta tinha morrido de uma
febre repentina com o desgosto da morte dos pais. Em breve, fora como se ela
nunca tivesse existido. A irmã ordenara-lhe que esta passaria a ser sua serva,
que se manteria sempre a seu lado e que nunca mostraria a ninguém quem ela era.
A pobre criança não tivera escolha senão aceitar esse estilo de vida, não muito
diferente daquele que tinha vivido até ao momento. E agora ali estava, numa
situação que talvez tivesse sido planeada desde o início. Um plano B para a
rainha.
A Devoradora vestiu as roupas de
serva e começou a preparar a irmã. Vestiu-a com o seu melhor vestido, o mais
pesado e o mais rico em joias, penteou-lhe o cabelo, preformou-a, maquilhou-a
e, finalmente, pôs-lhe a pesada coroa de ouro na cabeça. Estava igualzinha à
verdadeira rainha, tirando a expressão de puro terror que lhe contorcia as
faces, os olhos esbugalhados, enquanto a realidade da situação pesava sobre si.
A Devoradora sossegou-a, passou-lhe a mão na cara suavemente e disse-lhe que
tudo acabaria em breve e que nunca mais teria de se esconder, que, finalmente,
a sua existência faria sentido, que seria útil pela primeira vez na vida! A
gémea chorava desesperadamente, tentando pedir misericórdia, mas, muda, não
conseguia dizer uma única palavra. O som dos revolucionários no outro lado das
portas do quarto parecia cada vez mais perto, mais raivoso, mais mortífero. A
rainha lançou um olhar nervoso para a porta. Por fim, estava na hora. Deu um
beijo no topo da cabeça da irmã, os seus lábios um toque suave de afeição
fingida e, com um sorriso, sussurrou: “Foi uma boa decisão manter-te por
perto”. Num movimento rápido, levantou-se e fugiu para se esconder. No centro
do quarto, sentada no chão, a irmã gémea chorava o seu destino. Não havia como
fugir, não se podia esconder. Era demasiado tarde, já não havia esperança para
ela. Os revolucionários, aos berros, finalmente entraram no quarto brandindo as
suas armas e apontando-as à mulher no centro do quarto. À frente dos
revolucionários estava a própria conselheira da rainha, brandindo uma arma
apontada diretamente à cara da falsa rainha. A rapariga engoliu em seco, a sua
garganta áspera, e secou as lágrimas com as costas da mão e, num último gesto
de dignidade, levantou a cabeça e sorriu um sorriso digno da verdadeira rainha.
Na manhã seguinte, uma manhã chuvosa e escura,
parecia que todo o reino se reunia no largo da praça da guilhotina. Os mesmos
que antes gritavam palavras de apoio à rainha agora gritavam louvores à sua
morte, lutando por um lugar na fila da frente da sua execução. A substituta da
rainha olhou para as escadas que levavam à guilhotina e desejou que fossem mais
altas. Cada passo que dava arrepiava-a até aos ossos, mas não se permitiu ter
medo. Quando a conselheira da ex-rainha lhe perguntou quais seriam as suas
últimas palavras, ela apenas sorriu. Era doloroso fazê-lo, mas que mais podia
ela fazer? Na multidão, as pessoas berravam ofensas. Como era possível que
alguém que fizera tanto mal não ter sequer um pedido de desculpas para fazer? A
falsa rainha continuou a sorrir, um sorriso trémulo e cheio de dor, perguntando
a si mesma porque é que o destino ditara que as coisas fossem assim.
No meio da multidão, a verdadeira
Devoradora observava, com um capuz sob o rosto e uma larga capa a cobrir o
corpo. Mantinha-se calada, imóvel, apenas observando, como a sua irmã, que
agora tinha a cabeça sob a guilhotina, costumava fazer, a sua cara a réplica de
uma estátua. O carrasco empurrou a cabeça da falsa rainha para a barra enquanto
o tambor que anunciava a sua execução tocava. Ao olhar em frente, o seu olhar
cruzou-se com o da verdadeira rainha. Fechou os olhos recheados de lágrimas e
deu um último soluço de tristeza. O tambor parou e o silêncio caiu sobre a
praça enquanto a lâmina caía sobre o pescoço da jovem mártir. A sua cabeça a
cair dentro do cesto produziu um som seco e a multidão gritou de alegria.
Estava feito.
A verdadeira Devoradora suspirou de alívio, ao
mesmo tempo que suprimia a vontade de rir. Quem diria que tal plano iria
resultar.
Com um pequeno sorriso nos lábios,
murmurou para si mesma o que sempre dizia: “Um belo dia para uma execução… Nada
melhor para começar o dia.” A Devoradora puxou o capuz da capa mais para cima
dos olhos e virou costas à multidão e à guilhotina, à coroa e ao reino que ela
tinha construído e corrompido para nunca mais voltar. A sua fome tinha matado,
mas não fora ela a vítima.
Andreia Santos, 11º E
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Concurso "Quem conto um conto... ao modo de Saramago?!"
O concurso “Quem conta um conto… ao modo de
Saramago?!” é uma iniciativa do Plano Nacional de Leitura em articulação com a
Fundação José Saramago, a Rede de Bibliotecas Escolares, o Camões IP e a Porto
Editora. Trata-se de um desafio à criatividade dos jovens autores que querem
ousar uma experiência de escrita específica, através da criação de um conto.
Em 2014/2015 o Concurso teve como fundo
inspirador a obra “Memorial do
Convento”, de José Saramago e contou com a participação
das instituições culturais, educativas e administrativas de Mafra, local onde
irá decorrer, no dia 26 de junho, a cerimónia de entrega de prémios digna deste
nosso autor maior, do espaço histórico onde a ação da obra decorre e do seu
monumento emblemático.
A Escola Secundária de Seia participou com
seis contos, todos de alunos do 11º E, tendo a aluna Andreia Santos obtido o 3º lugar com o conto “A fome mais mortífera”. A ideia para a participação no concurso
surgiu após a realização de uma oficina de escrita criativa, na aula de
português, dinamizada pelo técnico da Ludoteca Municipal de Seia, António José
Baptista, que trabalhou a criatividade da escrita a partir de um excerto da
obra de José Saramago “O Memorial do
Convento”.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
terça-feira, 2 de junho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Livro do mês de junho
Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo. Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos - até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas - tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?
Francisco Salgueiro nasceu em Lisboa a 29 de junho de 1972.
Depois de ter tirado o Curso de Comunicação Empresarial, participou na criação da Direção de Comunicação da TV Cabo, dedicou-se à autoria e escrita de programas de televisão, na SIC, e à escrita de artigos de opinião para as revistas Notícias Magazine, Máxima, Telecabo e o jornal O Independente.
É um dos fundadores da primeira empresa em Portugal a dedicar-se à produção de conteúdos escritos para TV, Internet e Televisão Interativa.
Na Oficina do Livro publicou, entre outros, os romances Homens há Muitos, Viva o Amor, Splaaash, X-Teens - A Misteriosa Cidade Subterrânea, Amei-te em Copacabana, A Praia da Saudade, O anjo que queria pecar, O fim da inocência I e II, Estou Nua, e Agora? e Portugal Kitsh, seu último romance.
Depois de ter tirado o Curso de Comunicação Empresarial, participou na criação da Direção de Comunicação da TV Cabo, dedicou-se à autoria e escrita de programas de televisão, na SIC, e à escrita de artigos de opinião para as revistas Notícias Magazine, Máxima, Telecabo e o jornal O Independente.
É um dos fundadores da primeira empresa em Portugal a dedicar-se à produção de conteúdos escritos para TV, Internet e Televisão Interativa.
Na Oficina do Livro publicou, entre outros, os romances Homens há Muitos, Viva o Amor, Splaaash, X-Teens - A Misteriosa Cidade Subterrânea, Amei-te em Copacabana, A Praia da Saudade, O anjo que queria pecar, O fim da inocência I e II, Estou Nua, e Agora? e Portugal Kitsh, seu último romance.
Poema do mês de junho
No Entardecer dos Dias de Verão
No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que veem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...
No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que veem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
quinta-feira, 14 de maio de 2015
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