domingo, 8 de novembro de 2015

Livro do mês de novembro: "Capitães da areia", de Jorge Amado

Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. Em 1944 conheceu nova edição e, desde então, sucederam-se as edições nacionais e estrangeira, e as adaptações para a rádio, televisão e cinema. Jorge Amado descreve, em páginas carregadas de grande beleza e dramatismo, a vida dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia, conhecidos por Capitães da Areia.
O romance, que retrata o cotidiano de um grupo de meninos de rua, procura mostrar não apenas os assaltos e as atitudes violentas de sua vida bestializada, mas também as aspirações e os pensamentos ingénuos, comuns a qualquer criança.
Os personagens que compõem o núcleo central da narrativa apresentam algumas particularidades: João Grande possui uma força bruta, o Professor é lembrado pelo talento artístico, Sem-Pernas pela amargura existencial, a opressão sertaneja é representada por Volta-Seca, a sexualidade precoce por Gato, o malandro é o Boa-Vida e a tendência à religiosidade se manifesta em Pirulito. Todos são liderados por Pedro Bala, o protagonista do romance. 
Órfão desde muito cedo, Bala descobre o passado de seu pai, um líder operário assassinado durante uma greve. Quem lhe dá a informação é João de Adão, organizador de greves que abre ao menino as portas da luta trabalhista. Bala prefere continuar a organizar os assaltos e roubos cometidos pelo bando, participando das ações mais perigosas. Um dia, junta-se ao bando a menina Dora, cujos pais tinham morrido numa epidemia de malária. Vista inicialmente com desconfiança, aos poucos Dora se integra no grupo, ganhando o respeito de todos e o amor de Pedro Bala.
Durante uma ação, Bala e Dora são presos. Ela é colocada num orfanato, enquanto o menino é submetido à violência de torturadores que tentam obter dele o local do esconderijo dos Capitães. Bala sofre, mas nada revela. Foge do reformatório e liberta Dora. A menina, no entanto, sai doente do lugar. Em sua última noite de vida, pede ao namorado que a possua. 

A morte de Dora coincide com um momento de passagem para a vida adulta dos principais membros do bando. João Grande vira marinheiro, Volta-Seca torna-se cangaceiro, Pirulito entra para uma ordem religiosa e Sem-Pernas suicida-se para não cair nas mãos da polícia. Por fim, Pedro Bala abandona o grupo, mas não a condição de líder, agora voltada para a vida operária. Dessa forma, continua a obra inacabada do pai.

Jorge Amado nasceu em Pirangi, Baía, em 1912, e faleceu a 6 de Agosto de 2001. Viveu uma
adolescência agitada, primeiro, na Baía, no início dos seus estudos, depois no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e começou a dedicar-se ao jornalismo. Em 1935 já se tinha estreado como romancista com O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), seguindo-se Terras do Sem Fim (1943) e S. Jorge dos Ilhéus (1944). Politicamente de esquerda, foi obrigado a emigrar, passando por Buenos Aires, onde escreveu O Cavaleiro da Esperança (1942), biografia de Carlos Prestes, depois pela França, pela União Soviética... regressando entretanto ao Brasil depois de ter estado na Ásia e no Médio Oriente. Em 1951 recebeu o Prémio Estaline, com a designação de "Prémio Internacional da Paz". Os problemas sociais orientam a sua obra, mas o seu talento de escritor afirma-se numa linguagem rica de elementos populares e folclóricos e de grande conteúdo humano, o que vai superar a vertente política. A sua obra tem toques de picaresco, sem perder a essência crítica e a poética. Além das já citadas, referimos, na sua vasta produção: Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), Seara Vermelha (1946), Os Subterrâneos da Liberdade (1952). Mas é com Gabriela, Cravo e Canela (1958), Os Velhos Marinheiros (1961), Os Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966) em que o romancista põe de parte a faceta politizante inicial e se volta para temas como a infância, a música, o misticismo popular, a turbulência popular e a vagabundagem, numa linguagem de sabor poético, humorista, renovada com recursos da tradição clássica ligados aos processos da novela picaresca. O seu sentimento humano e o amor à terra natal inspiram textos onde é evidente a beleza da paisagem, a tradição cultural e popular, os problemas humanos e sociais - uma infância abandonada e culpada de delitos, o cais com as suas misérias, a vida difícil do negro da cidade, a seca, o cangaço, o trabalhador explorado da cidade e do campo, o "coronelismo" feudal latifundiário perpassam significativamente na obra deste romancista dos maiores do Brasil e dos mais conhecidos no mundo. Fecundo contador de histórias regionais, Jorge Amado definiu-se, um dia, "apenas um baiano romântico, contador de histórias". "Definição justa, pois resume o carácter do romancista voltado para exemplos de atitudes vitais: “românticas e sensuais a que, uma vez por outra, empresta matizes políticos...", como diz Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira. Foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1994.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Poema do mês de outubro: "D. Sebastião" de Fernando Pessoa

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, Mensagem

Livro do mês de outubro – D. Sebastião e o vidente, de Deana Barroqueiro

Conspiração, mistério, revelação. Uma complexa intriga palaciana, fielmente retratada, envolve as vidas das duas principais personagens, el-rei D. Sebastião e Miguel Leitão de Andrada, desde o nascimento ao desastre Alcácer Quibir.
D. Sebastião e o Vidente é um surpreendente livro de Deana Barroqueiro, um romance histórico fascinante que apresenta uma nova visão sobre uma das figuras mais marcantes da nossa história. D. Sebastião é retratado de uma forma crua, realista, oferecendo uma perspetiva mais humana de um rei órfão, que viveu a adolescência atormentado pelos seus complexos, um mancebo visionário senhor de um poder absoluto que o arrastou ao desastre.
Por sua vez, Miguel Leitão de Andrada, fidalgote de Pedrógão Grande e reconhecido como vidente, surge como o leal escudeiro de D. Sebastião, com quem desenvolve uma relação "quixotesca", partilhando todas as vicissitudes que marcam o destino do rei Desejado. Foi, aliás, a partir da obra de Miguel Leitão de Andrada - Miscelânea - que Deana Barroqueiro se inspirou para escrever este D. Sebastião e o Vidente, baseando-se também no estudo comparado de inúmeros documentos históricos portugueses, espanhóis, franceses e holandeses, num trabalho que a ocupou ao longo de dois anos.
A leitura dessas fontes e a paixão que a autora nutre pela época renascentista, influenciaram de sobremaneira a definição da estrutura de D. Sebastião e o Vidente, a qual segue o modelo dos romances seiscentistas (dividida em quatro partes, com 150 capítulos curtos). De sublinhar, ainda, a presença de um narrador que interpela o leitor quase sempre num registo irónico, pondo em evidência o paralelismo do seu tempo com os nossos dias.

Tratando-se de uma obra de grande fôlego, D. Sebastião e o Vidente apresenta-se com uma linguagem muito cuidada, mas simples, notando-se a preocupação da autora em refletir, sobretudo através dos diálogos, o falar, os usos e os costumes daquela época, dando uma cor singular à obra.


Deana Barroqueiro nasceu em New Haven Connecticut, nos Estados Unidos da América, em 23 de julho de 1945. Foi essencialmente através da escrita que tomou consciência do seu ser e se relacionou, comunicando e comungando, com o mundo que a rodeava.
Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, de cujo grupo de teatro fez parte juntamente com Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Jorge de Silva Melo e tantos outros, num tempo conturbado mas de contínua mudança que recorda com saudade e emoção.
Por vocação, tornou-se professora de Português, fazendo o estágio na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, onde tem concretizado a maioria dos seus projetos de Teatro e de Escrita Criativa com os alunos, tendo publicado várias obras com o Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto de Inovação Educacional.
Deana Barroqueiro confessa-se uma apaixonada da Língua e Cultura portuguesas, em particular dos Séculos XVI a XVIII, que estuda há mais de vinte anos, e sendo, por natureza ou vício, uma contadora de histórias, não resistiu ao desejo de partilhar, com quem a quiser escutar, essas surpreendentes descobertas das vidas aventurosas ou trágicas, por isso mesmo tão humanas e próximas, de personagens históricas que fazem parte do nosso imaginário coletivo.
Publicou oito romances históricos e dois livros de contos, os quais já se encontram traduzidos e editados em Espanha, em Itália e no Brasil. No dia 21 de novembro de 2003, nos Estados Unidos da América, durante o sarau para atribuição de prémios do Concurso Literário Proverbo, de cujo júri fez parte, a escritora recebeu um louvor pela Câmara de Newark, em reconhecimento do seu contributo para a divulgação e promoção da língua e cultura portuguesas entre as comunidades de emigrantes da América, Canadá e Europa.
É autora do primeiro livro de ficção editado pela Porto Editora, D. Sebastião e o Vidente e venceu o Prémio Máxima de Literatura (Prémio Especial do Júri).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Livro do mês de setembro: "Não contes nada", de Lisa Scottoline

O seu filho vai a conduzir.
Só veem a mulher quando já é tarde de mais.
E o pior acontece.

Uma decisão. O futuro de uma família arruinado. Quando Jake Buckman decide deixar Ryan, o filho de dezasseis anos, praticar a condução numa estrada deserta a caminho de casa, não faz ideia das consequências fatais do seu gesto. Na escuridão da noite, aparece uma mulher a correr vinda não se sabe de onde e a colisão é fatal. Agora Jake e Ryan têm duas opções: admitir a responsabilidade de Ryan ou seguir para casa como se nada tivesse acontecido. O que se segue não é um caso clássico de atropelamento e fuga, mas sim a decisão instintiva de um pai que fará qualquer coisa para proteger o filho. Até onde deverá ir o sacrifício de um pai para proteger o filho? E será que alguma família conseguiria suportar o fardo de um tal segredo?

Lisa Scottoline é autora best-seller de mais de vinte livros. Está publicada em mais de trinta países e tem vendas que superam os 25 milhões de exemplares. Recebeu um Edgar Award e o prémio Cosmopolitan Fun Fearless Female Award. Tem uma coluna semanal no Philadelphia Inquirer, bem como uma série de livros de não ficção escritos com a filha, Francesca Serritella. Lisa foi advogada e vive em Filadélfia.


Poema do mês de setembro

A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se a luz a sombra fosse.

Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma, que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.

Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quasi véu,
E, como tudo, não é nada.

 Fernando Pessoa

10 - 9 - 1934


In Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

terça-feira, 23 de junho de 2015

Conto premiado no concurso "Quem conta um conto... ao modo de Saramago?!"


A fome mais mortífera

Algures, num lugar cuja existência é dúbia e até improvável, existia um pequeno país moldado por guerras e conquistas. A governá-lo estava uma jovem feita da mesma matéria, soberana de uma monarquia absoluta, conhecida como a “Devoradora de Galáxias”, nome que lhe fora atribuído pelo povo e a que ela fazia questão de fazer justiça. “Ela podia devorar o mundo e ainda ter fome”, era o que o povo costumava dizer. A rainha tinha fome de sangue e luxo, uma sede insaciável de mais e mais. Tais gostos não saíam baratos a ninguém, especialmente ao povo, que vivia sob a vontade da Devoradora, mas, apesar de tudo, ela era adorada. Parecia ter uma forma muito particular de encantar todos à sua volta e sabia, perfeitamente, como manipular aqueles que de outra maneira se virariam contra ela. Apreciavam o seu “esforço” para ter um país feliz, e apreciavam ainda mais os banhos de sangue que a rainha gostava de organizar. A Devoradora adorava fazer execuções públicas. Essas demonstrações de poder eram algo que lhe dava bastante gozo porque, afinal, haveria melhor maneira de mostrar a sua soberania do que fazer a cabeça dos seus inimigos rolar? E eram muitos, esses inimigos. O povo aplaudia, vibrava com as execuções, esquecia-se de todos os males que o atormentava e gritava por mais. Da sua cadeira, a Devoradora acenava e ria. “Um belo dia para uma execução”, dizia sempre, “não há nada melhor para começar o dia”. Ao seu lado, a sua conselheira acenava ligeiramente com a cabeça, verbalizando uma palavra de concordância e um elogio à rainha. A rainha lançava um olhar à sua criada pessoal, que se limitava a acenar com a cabeça. Que escolha tinham elas, se não queriam acabar com a cabeça dentro de um cesto? Eram belos dias de paz para todos os ignorantes, dias de abundância e sem fome.

Um dia, durante uma dessas execuções, um membro da populaça subiu para junto da guilhotina, dirigindo-se à multidão. Gritava palavras contra a rainha, contra a sua forma de governar e contra o seu estilo de vida. Acusava-a de se alimentar da miséria dos outros, do sangue que derramavam. A rainha revirou os olhos. Aquele não era o primeiro que tentava manchar o seu nome e, certamente, não seria o último. No entanto, ao observar a forma como a pessoa falava e, especialmente, a forma como o povo ouvia, um certo nervosismo pareceu tomar conta dela. Os que costumavam tentar causar problemas não eram tão articulados. A conselheira assegurou-a de que tudo seria resolvido, que era apenas um revolucionário medíocre a tentar arranjar problemas e que não havia razão para se preocupar. A rainha, no entanto, não ficou convencida e ordenou que aquela pessoa fosse imediatamente executada. Antes de os guardas chegarem a ele, este virou-se para a rainha, falando diretamente para ela. Disse apenas uma simples frase: Nós sabemos. A Devoradora fez um ar confuso, perguntando-lhe o que é que ele poderia saber fosse do que fosse. O indivíduo limitou-se a sorrir, fazendo uma vénia. “Longa vida à rainha” foram as últimas palavras antes do carrasco o agarrar e levar para a guilhotina. O sorriso desapareceu dos lábios da Devoradora. A criada e a conselheira apenas observavam, lançando olhares nervosos à sua soberana. A fome da rainha estaria saciada por pouco tempo.

 Este episódio perturbara a Devoradora mais do que ela gostaria de admitir. Apesar dos seus esforços para manter uma certa postura, sabia que a realidade era muito diferente daquilo que aparentava. O reino estava na miséria devido aos gastos luxuosos, e ela estava ciente dos revolucionários prontos a tirar-lhe a coroa ao mais pequeno deslize. Pediu conselhos à conselheira que lhe garantiu que estava tudo sob controlo. A sua criada pessoal apenas observava, calada. A rainha mantinha-a cada vez mais junto de si.

A Devoradora decidiu que precisava urgentemente de se proteger. Os seus inimigos estavam a ganhar terreno e isso não podia acontecer. Decidiu mandar chamar o rei do país vizinho, soberano de um país rico, amigável e, mais importante que tudo, poderoso. Recebeu o rei da melhor forma, com sorrisos amigáveis e boas maneiras. O rei ficou encantado e, quando a hora de fazer o acordo chegou, a rainha estava certa que conseguiria o que queria. Pediu a todos que saíssem, exceto a sua criada. O rei perguntou se não seria melhor esta sair, visto que podia revelar a conversa a terceiros. A rainha riu e assegurou-o que não tinha de se preocupar, tudo o que dissessem não sairia daquelas paredes. A Devoradora apresentou a sua proposta: faziam um casamento arranjado, uniam os reinos, e ambos beneficiavam com isso. Assegurou-o que não era uma questão de amor mas sim de necessidade, ele poderia ter as amantes que quisesse e a única coisa que a rainha pedia era que ele a apoiasse nas suas causas. O rei, para surpresa da Devoradora, não aceitou. Disse que tinha alguém com quem pretendia casar, alguém que realmente queria a seu lado e nem a aliança com a famosa Devoradora de Galáxias o faria abdicar. A rainha ficou furiosa, um sentimento de humilhação a crescer nas suas veias. Como se atrevia ele a recusar termos tão favoráveis? Com o ego ferido, mandou o rei embora e ordenou que fossem buscar a tal rapariga o que rei tanto adorava. A rapariga foi levada à sua presença alguns dias depois e, para surpresa da rainha, não passava de uma simples rapariga do povo.

A Devoradora examinou-a com atenção. A pobrezinha tremia de medo perante ela. Não havia nada de especial nela, não era rica, não era especialmente bonita, nada. Porque é que o rei gostava tanto dela? Porque é que ele preferiria alguém como ela quando podia ter uma rainha? Perguntou-lhe o que fazia dela tão especial e, inocentemente, a rapariga respondeu que não sabia. A resposta da plebeia contribuiu apenas para aborrecer ainda mais a rainha. Virando-se para a sua conselheira, ordenou que a rapariga fosse executada de imediato. A conselheira olhou para a sua rainha, interrogando-a se seria realmente uma boa ideia. Iria provocar uma guerra, uma revolução! O rei nunca deixaria tal coisa passar impune! No entanto, a rainha não quis ouvir. Se ela não podia ter o que queria, então quem a humilhara também não. Ela estava faminta e iria alimentar-se.

 Quando se realizou a execução da rapariga, o povo não aplaudiu. Um borborinho estranho tomou conta da praça quando a multidão murmurava entre si. Até então a rainha tinha apenas executado, pelo menos publicamente, os seus inimigos e os inimigos do país, mas agora virara-se contra os seus, contra uma rapariga inocente. A multidão pareceu aperceber-se da natureza da mulher que se sentava no trono do país em que viviam e, de repente, o peso da reprovação pesou sobre os ombros da rainha. A criada observava-a, calada, vendo nos seus olhos algo que nunca vira: medo. Tudo estava prestes a mudar por causa de um simples ato de egoísmo. O buraco no seu estomago pareceu ficar mais fundo.

 As manifestações começaram não muito depois disso. Parecia que bastara uma pequena faísca para que tudo o que a Devoradora tinha trabalhado tanto para alcançar fosse consumido em chamas e lhe fugisse por entre os dedos como água. Então era isto que os seus súbditos chamavam de retribuição? Ela que fora tão gentil para eles, e agora eles faziam um escândalo por causa de uma simples rapariga morta! Absurdo, pensava ela, cega pelo seu ego, não percebendo que era muito mais do que isso. Estava tudo a vir ao de cima: o estado dos cofres do país, a verdadeira miséria do povo, tudo. A rainha não compreendia como ela tinha mantido tudo em segredo, tudo fechado a quatro chaves. Lembrou-se das palavras do homem naquele dia na praça: “Nós sabemos”. Apercebeu-se que alguém dentro dos assuntos tinha partilhado essa informação, mas agora era tarde demais para fazer fosse o que fosse. Amaldiçoou-se a si própria e à sua estupidez por confiar que a sua fachada duraria para sempre. O povo pareceu aperceber-se das suas próprias condições, que a rainha lhes tinha mentido vezes sem conta sobre o estado do país e que ela era, na verdade, uma tirana faminta de caos e crueldade. Os grupos revolucionários começavam a juntar apoiantes e, juntamente com o exército do rei que a Devoradora tinha ofendido, destruíram os aliados da rainha um por um.

 À medida que os dias passavam, parecia haver mais e mais problemas. Era impossível sair do palácio, era demasiado perigoso. Os revolucionários tinham cada vez mais apoiantes e os que se mantinham do lado da rainha estavam a ser dizimados A sua conselheira tinha fugido, imaginava ela, e os restantes fugiam aos poucos com medo de serem levados quando o castelo fosse tomado pelos revolucionários. Em breve, estava sozinha naquela luta, como um animal ferido e encurralado pelos caçadores.

 Sozinha, sentada no seu trono, a Devoradora pensava. O que podia ela fazer? Por muito que pensasse, não chegava a uma conclusão. Era tarde demais. A sua imagem estava arruinada por causa de um erro idiota, por achar que ainda havia espaço de manobra para os seus caprichos. A sua fome tinha sido o seu pecado. Ao seu lado, a criada, a única que se mantivera do seu lado, mantinha-se quieta, sentada, a observar a rainha. Lá fora, o som dos revolucionários fazia-se ouvir, cada vez mais perto, cada vez mais aterrador. De repente, o som do portão principal a ser arrebentado ecoou pelas paredes do castelo. A Devoradora entrou em pânico. Ela não esperava que eles viessem atacá-la, diretamente, tão cedo. Se a multidão tinha entrado no palácio, já não havia nada que a protegesse, não tinha para onde fugir. Apercebeu-se que estava na hora de fazer alguma coisa se quisesse sobreviver. Fazer algo que já planeara há muito tempo no caso das coisas correrem terrivelmente mal. Agarrou no braço da sua criada e arrastou-a consigo. Levou a rapariga para o quarto e ordenou-lhe que tirasse as vestes de criada. A rapariga, apavorada, obedeceu, revelando a sua cara normalmente coberta pelo gorro que todas as criadas usavam. A Devoradora teve a sensação de estar a olhar para um espelho enquanto examinava a cara da irmã gémea, algo que não via de forma tão clara há muitos anos.

As duas irmãs tinham sido criadas naquele mesmo palácio, mas a Devoradora sempre fora mais favorecida. A deficiência verbal da outra irmã, a sua mudez, fizera com que esta fosse posta de parte toda a sua vida. Fora-lhe dito vezes sem conta que nunca iria governar o reino, que iria viver sempre na sombra da irmã, uma inútil. Fora com essa mentalidade que crescera, e a pobrezinha mantinha-se sempre submissa, sempre sem poder verbalizar os seus pensamentos. Poucos sabiam da sua existência, e os que sabiam pareciam não se importar. Quando os pais morreram e a Devoradora subiu ao trono, foi decidido que a irmã morreria, não de forma literal, mas para que a sua existência fosse esquecida. Os retratos foram queimados e foi anunciado àqueles que sabiam da sua existência que esta tinha morrido de uma febre repentina com o desgosto da morte dos pais. Em breve, fora como se ela nunca tivesse existido. A irmã ordenara-lhe que esta passaria a ser sua serva, que se manteria sempre a seu lado e que nunca mostraria a ninguém quem ela era. A pobre criança não tivera escolha senão aceitar esse estilo de vida, não muito diferente daquele que tinha vivido até ao momento. E agora ali estava, numa situação que talvez tivesse sido planeada desde o início. Um plano B para a rainha.

A Devoradora vestiu as roupas de serva e começou a preparar a irmã. Vestiu-a com o seu melhor vestido, o mais pesado e o mais rico em joias, penteou-lhe o cabelo, preformou-a, maquilhou-a e, finalmente, pôs-lhe a pesada coroa de ouro na cabeça. Estava igualzinha à verdadeira rainha, tirando a expressão de puro terror que lhe contorcia as faces, os olhos esbugalhados, enquanto a realidade da situação pesava sobre si. A Devoradora sossegou-a, passou-lhe a mão na cara suavemente e disse-lhe que tudo acabaria em breve e que nunca mais teria de se esconder, que, finalmente, a sua existência faria sentido, que seria útil pela primeira vez na vida! A gémea chorava desesperadamente, tentando pedir misericórdia, mas, muda, não conseguia dizer uma única palavra. O som dos revolucionários no outro lado das portas do quarto parecia cada vez mais perto, mais raivoso, mais mortífero. A rainha lançou um olhar nervoso para a porta. Por fim, estava na hora. Deu um beijo no topo da cabeça da irmã, os seus lábios um toque suave de afeição fingida e, com um sorriso, sussurrou: “Foi uma boa decisão manter-te por perto”. Num movimento rápido, levantou-se e fugiu para se esconder. No centro do quarto, sentada no chão, a irmã gémea chorava o seu destino. Não havia como fugir, não se podia esconder. Era demasiado tarde, já não havia esperança para ela. Os revolucionários, aos berros, finalmente entraram no quarto brandindo as suas armas e apontando-as à mulher no centro do quarto. À frente dos revolucionários estava a própria conselheira da rainha, brandindo uma arma apontada diretamente à cara da falsa rainha. A rapariga engoliu em seco, a sua garganta áspera, e secou as lágrimas com as costas da mão e, num último gesto de dignidade, levantou a cabeça e sorriu um sorriso digno da verdadeira rainha.

 Na manhã seguinte, uma manhã chuvosa e escura, parecia que todo o reino se reunia no largo da praça da guilhotina. Os mesmos que antes gritavam palavras de apoio à rainha agora gritavam louvores à sua morte, lutando por um lugar na fila da frente da sua execução. A substituta da rainha olhou para as escadas que levavam à guilhotina e desejou que fossem mais altas. Cada passo que dava arrepiava-a até aos ossos, mas não se permitiu ter medo. Quando a conselheira da ex-rainha lhe perguntou quais seriam as suas últimas palavras, ela apenas sorriu. Era doloroso fazê-lo, mas que mais podia ela fazer? Na multidão, as pessoas berravam ofensas. Como era possível que alguém que fizera tanto mal não ter sequer um pedido de desculpas para fazer? A falsa rainha continuou a sorrir, um sorriso trémulo e cheio de dor, perguntando a si mesma porque é que o destino ditara que as coisas fossem assim.

No meio da multidão, a verdadeira Devoradora observava, com um capuz sob o rosto e uma larga capa a cobrir o corpo. Mantinha-se calada, imóvel, apenas observando, como a sua irmã, que agora tinha a cabeça sob a guilhotina, costumava fazer, a sua cara a réplica de uma estátua. O carrasco empurrou a cabeça da falsa rainha para a barra enquanto o tambor que anunciava a sua execução tocava. Ao olhar em frente, o seu olhar cruzou-se com o da verdadeira rainha. Fechou os olhos recheados de lágrimas e deu um último soluço de tristeza. O tambor parou e o silêncio caiu sobre a praça enquanto a lâmina caía sobre o pescoço da jovem mártir. A sua cabeça a cair dentro do cesto produziu um som seco e a multidão gritou de alegria. Estava feito.

 A verdadeira Devoradora suspirou de alívio, ao mesmo tempo que suprimia a vontade de rir. Quem diria que tal plano iria resultar.

Com um pequeno sorriso nos lábios, murmurou para si mesma o que sempre dizia: “Um belo dia para uma execução… Nada melhor para começar o dia.” A Devoradora puxou o capuz da capa mais para cima dos olhos e virou costas à multidão e à guilhotina, à coroa e ao reino que ela tinha construído e corrompido para nunca mais voltar. A sua fome tinha matado, mas não fora ela a vítima.

Andreia Santos, 11º E

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Concurso "Quem conto um conto... ao modo de Saramago?!"

O concurso “Quem conta um conto… ao modo de Saramago?!” é uma iniciativa do Plano Nacional de Leitura em articulação com a Fundação José Saramago, a Rede de Bibliotecas Escolares, o Camões IP e a Porto Editora. Trata-se de um desafio à criatividade dos jovens autores que querem ousar uma experiência de escrita específica, através da criação de um conto.
Em 2014/2015 o Concurso teve como fundo inspirador a obra “Memorial do Convento”, de José Saramago e contou com  a participação das instituições culturais, educativas e administrativas de Mafra, local onde irá decorrer, no dia 26 de junho, a cerimónia de entrega de prémios digna deste nosso autor maior, do espaço histórico onde a ação da obra decorre e do seu monumento emblemático.
A Escola Secundária de Seia participou com seis contos, todos de alunos do 11º E, tendo a aluna Andreia Santos obtido o 3º lugar com o conto “A fome mais mortífera”. A ideia para a participação no concurso surgiu após a realização de uma oficina de escrita criativa, na aula de português, dinamizada pelo técnico da Ludoteca Municipal de Seia, António José Baptista, que trabalhou a criatividade da escrita a partir de um excerto da obra de José Saramago “O Memorial do Convento”.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Livro do mês de junho

Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo. Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos - até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas - tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?

Francisco Salgueiro nasceu em Lisboa a 29 de junho de 1972.
Depois de ter tirado o Curso de Comunicação Empresarial, participou na criação da Direção de Comunicação da TV Cabo, dedicou-se à autoria e escrita de programas de televisão, na SIC, e à escrita de artigos de opinião para as revistas Notícias Magazine, Máxima, Telecabo e o jornal O Independente.
É um dos fundadores da primeira empresa em Portugal a dedicar-se à produção de conteúdos escritos para TV, Internet e Televisão Interativa.
Na Oficina do Livro publicou, entre outros, os romances Homens há Muitos, Viva o Amor, Splaaash, X-Teens - A Misteriosa Cidade Subterrânea, Amei-te em Copacabana, A Praia da Saudade, O anjo que queria pecar, O fim da inocência I e II, Estou Nua, e Agora? e Portugal Kitsh, seu último romance.

Poema do mês de junho

No Entardecer dos Dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que veem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"