terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Poema do mês de dezembro: "Dia de Natal", de António Gedeão

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exata em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse diretamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Filme do mês de novembro: As sufragistas

Título original: Suffragette

Realizador: Sarah Gavron
Atores: Carey Mulligan , Anne- Marie Duff, Helena Bonham Carter, Meryl Streep,  Adam Nagaitis, Adrian Schiller.
Argumento: Abi Morgan
Género:  Drama histórico
Classificação:  M/12
Outros dados: Reino Unido, 2013, Cores, 106 min.

O início da luta do movimento feminista e os métodos incomuns de batalha. Mulheres que, forçadas à clandestinidade, enfrentaram os seus limites pela causa e desafiaram o Estado extremamente opressor. A história destas ativistas, maioritariamente da classe operária e dispostas a perder tudo na luta pela igualdade, é baseada em factos reais.






Em Seia, no Cine Teatro da  Casa da Cultura, nos próximos dias 20, 21 e 22 de novembro, pelas 21:30h.


Obras selecionadas para o Concurso Nacional de Leitura 2015/2016


Regulamento do Concurso Nacional de Leitura 2015-2016

Concurso Nacional de Leitura


domingo, 8 de novembro de 2015

Boletim informativo: novidades de novembro






Poema do mês de novembro: "Voz de Outono", de Antero de Quental

Voz de Outono

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
— «Mais te valera, nú e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!» —


Antero de Quental, in "Sonetos"

Livro do mês de novembro: "Capitães da areia", de Jorge Amado

Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. Em 1944 conheceu nova edição e, desde então, sucederam-se as edições nacionais e estrangeira, e as adaptações para a rádio, televisão e cinema. Jorge Amado descreve, em páginas carregadas de grande beleza e dramatismo, a vida dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia, conhecidos por Capitães da Areia.
O romance, que retrata o cotidiano de um grupo de meninos de rua, procura mostrar não apenas os assaltos e as atitudes violentas de sua vida bestializada, mas também as aspirações e os pensamentos ingénuos, comuns a qualquer criança.
Os personagens que compõem o núcleo central da narrativa apresentam algumas particularidades: João Grande possui uma força bruta, o Professor é lembrado pelo talento artístico, Sem-Pernas pela amargura existencial, a opressão sertaneja é representada por Volta-Seca, a sexualidade precoce por Gato, o malandro é o Boa-Vida e a tendência à religiosidade se manifesta em Pirulito. Todos são liderados por Pedro Bala, o protagonista do romance. 
Órfão desde muito cedo, Bala descobre o passado de seu pai, um líder operário assassinado durante uma greve. Quem lhe dá a informação é João de Adão, organizador de greves que abre ao menino as portas da luta trabalhista. Bala prefere continuar a organizar os assaltos e roubos cometidos pelo bando, participando das ações mais perigosas. Um dia, junta-se ao bando a menina Dora, cujos pais tinham morrido numa epidemia de malária. Vista inicialmente com desconfiança, aos poucos Dora se integra no grupo, ganhando o respeito de todos e o amor de Pedro Bala.
Durante uma ação, Bala e Dora são presos. Ela é colocada num orfanato, enquanto o menino é submetido à violência de torturadores que tentam obter dele o local do esconderijo dos Capitães. Bala sofre, mas nada revela. Foge do reformatório e liberta Dora. A menina, no entanto, sai doente do lugar. Em sua última noite de vida, pede ao namorado que a possua. 

A morte de Dora coincide com um momento de passagem para a vida adulta dos principais membros do bando. João Grande vira marinheiro, Volta-Seca torna-se cangaceiro, Pirulito entra para uma ordem religiosa e Sem-Pernas suicida-se para não cair nas mãos da polícia. Por fim, Pedro Bala abandona o grupo, mas não a condição de líder, agora voltada para a vida operária. Dessa forma, continua a obra inacabada do pai.

Jorge Amado nasceu em Pirangi, Baía, em 1912, e faleceu a 6 de Agosto de 2001. Viveu uma
adolescência agitada, primeiro, na Baía, no início dos seus estudos, depois no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e começou a dedicar-se ao jornalismo. Em 1935 já se tinha estreado como romancista com O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), seguindo-se Terras do Sem Fim (1943) e S. Jorge dos Ilhéus (1944). Politicamente de esquerda, foi obrigado a emigrar, passando por Buenos Aires, onde escreveu O Cavaleiro da Esperança (1942), biografia de Carlos Prestes, depois pela França, pela União Soviética... regressando entretanto ao Brasil depois de ter estado na Ásia e no Médio Oriente. Em 1951 recebeu o Prémio Estaline, com a designação de "Prémio Internacional da Paz". Os problemas sociais orientam a sua obra, mas o seu talento de escritor afirma-se numa linguagem rica de elementos populares e folclóricos e de grande conteúdo humano, o que vai superar a vertente política. A sua obra tem toques de picaresco, sem perder a essência crítica e a poética. Além das já citadas, referimos, na sua vasta produção: Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), Seara Vermelha (1946), Os Subterrâneos da Liberdade (1952). Mas é com Gabriela, Cravo e Canela (1958), Os Velhos Marinheiros (1961), Os Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966) em que o romancista põe de parte a faceta politizante inicial e se volta para temas como a infância, a música, o misticismo popular, a turbulência popular e a vagabundagem, numa linguagem de sabor poético, humorista, renovada com recursos da tradição clássica ligados aos processos da novela picaresca. O seu sentimento humano e o amor à terra natal inspiram textos onde é evidente a beleza da paisagem, a tradição cultural e popular, os problemas humanos e sociais - uma infância abandonada e culpada de delitos, o cais com as suas misérias, a vida difícil do negro da cidade, a seca, o cangaço, o trabalhador explorado da cidade e do campo, o "coronelismo" feudal latifundiário perpassam significativamente na obra deste romancista dos maiores do Brasil e dos mais conhecidos no mundo. Fecundo contador de histórias regionais, Jorge Amado definiu-se, um dia, "apenas um baiano romântico, contador de histórias". "Definição justa, pois resume o carácter do romancista voltado para exemplos de atitudes vitais: “românticas e sensuais a que, uma vez por outra, empresta matizes políticos...", como diz Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira. Foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1994.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Poema do mês de outubro: "D. Sebastião" de Fernando Pessoa

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, Mensagem

Livro do mês de outubro – D. Sebastião e o vidente, de Deana Barroqueiro

Conspiração, mistério, revelação. Uma complexa intriga palaciana, fielmente retratada, envolve as vidas das duas principais personagens, el-rei D. Sebastião e Miguel Leitão de Andrada, desde o nascimento ao desastre Alcácer Quibir.
D. Sebastião e o Vidente é um surpreendente livro de Deana Barroqueiro, um romance histórico fascinante que apresenta uma nova visão sobre uma das figuras mais marcantes da nossa história. D. Sebastião é retratado de uma forma crua, realista, oferecendo uma perspetiva mais humana de um rei órfão, que viveu a adolescência atormentado pelos seus complexos, um mancebo visionário senhor de um poder absoluto que o arrastou ao desastre.
Por sua vez, Miguel Leitão de Andrada, fidalgote de Pedrógão Grande e reconhecido como vidente, surge como o leal escudeiro de D. Sebastião, com quem desenvolve uma relação "quixotesca", partilhando todas as vicissitudes que marcam o destino do rei Desejado. Foi, aliás, a partir da obra de Miguel Leitão de Andrada - Miscelânea - que Deana Barroqueiro se inspirou para escrever este D. Sebastião e o Vidente, baseando-se também no estudo comparado de inúmeros documentos históricos portugueses, espanhóis, franceses e holandeses, num trabalho que a ocupou ao longo de dois anos.
A leitura dessas fontes e a paixão que a autora nutre pela época renascentista, influenciaram de sobremaneira a definição da estrutura de D. Sebastião e o Vidente, a qual segue o modelo dos romances seiscentistas (dividida em quatro partes, com 150 capítulos curtos). De sublinhar, ainda, a presença de um narrador que interpela o leitor quase sempre num registo irónico, pondo em evidência o paralelismo do seu tempo com os nossos dias.

Tratando-se de uma obra de grande fôlego, D. Sebastião e o Vidente apresenta-se com uma linguagem muito cuidada, mas simples, notando-se a preocupação da autora em refletir, sobretudo através dos diálogos, o falar, os usos e os costumes daquela época, dando uma cor singular à obra.


Deana Barroqueiro nasceu em New Haven Connecticut, nos Estados Unidos da América, em 23 de julho de 1945. Foi essencialmente através da escrita que tomou consciência do seu ser e se relacionou, comunicando e comungando, com o mundo que a rodeava.
Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, de cujo grupo de teatro fez parte juntamente com Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Jorge de Silva Melo e tantos outros, num tempo conturbado mas de contínua mudança que recorda com saudade e emoção.
Por vocação, tornou-se professora de Português, fazendo o estágio na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, onde tem concretizado a maioria dos seus projetos de Teatro e de Escrita Criativa com os alunos, tendo publicado várias obras com o Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto de Inovação Educacional.
Deana Barroqueiro confessa-se uma apaixonada da Língua e Cultura portuguesas, em particular dos Séculos XVI a XVIII, que estuda há mais de vinte anos, e sendo, por natureza ou vício, uma contadora de histórias, não resistiu ao desejo de partilhar, com quem a quiser escutar, essas surpreendentes descobertas das vidas aventurosas ou trágicas, por isso mesmo tão humanas e próximas, de personagens históricas que fazem parte do nosso imaginário coletivo.
Publicou oito romances históricos e dois livros de contos, os quais já se encontram traduzidos e editados em Espanha, em Itália e no Brasil. No dia 21 de novembro de 2003, nos Estados Unidos da América, durante o sarau para atribuição de prémios do Concurso Literário Proverbo, de cujo júri fez parte, a escritora recebeu um louvor pela Câmara de Newark, em reconhecimento do seu contributo para a divulgação e promoção da língua e cultura portuguesas entre as comunidades de emigrantes da América, Canadá e Europa.
É autora do primeiro livro de ficção editado pela Porto Editora, D. Sebastião e o Vidente e venceu o Prémio Máxima de Literatura (Prémio Especial do Júri).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Livro do mês de setembro: "Não contes nada", de Lisa Scottoline

O seu filho vai a conduzir.
Só veem a mulher quando já é tarde de mais.
E o pior acontece.

Uma decisão. O futuro de uma família arruinado. Quando Jake Buckman decide deixar Ryan, o filho de dezasseis anos, praticar a condução numa estrada deserta a caminho de casa, não faz ideia das consequências fatais do seu gesto. Na escuridão da noite, aparece uma mulher a correr vinda não se sabe de onde e a colisão é fatal. Agora Jake e Ryan têm duas opções: admitir a responsabilidade de Ryan ou seguir para casa como se nada tivesse acontecido. O que se segue não é um caso clássico de atropelamento e fuga, mas sim a decisão instintiva de um pai que fará qualquer coisa para proteger o filho. Até onde deverá ir o sacrifício de um pai para proteger o filho? E será que alguma família conseguiria suportar o fardo de um tal segredo?

Lisa Scottoline é autora best-seller de mais de vinte livros. Está publicada em mais de trinta países e tem vendas que superam os 25 milhões de exemplares. Recebeu um Edgar Award e o prémio Cosmopolitan Fun Fearless Female Award. Tem uma coluna semanal no Philadelphia Inquirer, bem como uma série de livros de não ficção escritos com a filha, Francesca Serritella. Lisa foi advogada e vive em Filadélfia.


Poema do mês de setembro

A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se a luz a sombra fosse.

Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma, que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.

Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quasi véu,
E, como tudo, não é nada.

 Fernando Pessoa

10 - 9 - 1934


In Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006