terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Poema do mês de janeiro: O ano passado


O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.
As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.
E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.


Carlos Drummond de Andrade

Livro do mês de janeiro: "O nosso reino", de Valter Hugo Mãe


Delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus. Retrato de um Portugal recôndito ao tempo da Revolução dos Cravos que nos conta como em lugares pequenos as ideias maiores são relativamente intemporais e o que acontece ignora largamente o tempo exato do mundo.
O belo livro de estreia de Valter Hugo Mãe é uma fulgurante prova de imaginação e beleza. Entre a profunda ternura e a difícil aprendizagem da vida, cada dia é um esforço para que se prove a existência do milagre de se ser alguém.




Valter Hugo Mãe é um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em países como o Brasil, a Alemanha, a Espanha, a França ou a Croácia. Publicou sete romances: Homens imprudentemente poéticos; A desumanização; O filho de mil homens; a máquina de fazer espanhóis (Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano e Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano); o apocalipse dos trabalhadores; o remorso de baltazar serapião (Prémio Literário José Saramago) e o nosso reino. Escreveu alguns livros para todas as idades, entre os quais: Contos de cães e maus lobos, O paraíso são os outros e As mais belas coisas do mundo. A sua poesia encontra-se reunida no volume publicação da mortalidade. Publica a crónica Autobiografia Imaginária no Jornal de Letras e coordena também a coleção de poesia elogio da sombra.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Poema do mês de dezembro - Natal, de Miguel Torga

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...
E Deus não representou.

Miguel Torga, in 'Diários'

Livro do mês de dezembro:"Casamento em dezembro", de Anita Shreve


Numa estalagem, no Massachusetts, sete antigos colegas de escola reúnem-se para um casamento. Nora, a dona da estalagem, teve de reinventar recentemente a sua vida após a morte do marido. Avery, que ainda consegue ouvir os ecos de um terrível acontecimento passado vinte e seis anos antes, estabeleceu-se em Toronto com a mulher e os dois filhos. Agnes, que é atualmente professora de História, permanece solteira e anseia contar um segredo que chocaria toda a gente. Bridget, mãe de um rapaz de quinze anos, concordou, apesar da incerteza quanto à sua saúde e futuro, em casar-se com Bill, um antigo namorado do liceu que reencontrou recentemente. Na verdade, é Bill que deseja ardentemente que este casamento se realize e que reúne toda a gente para um surpreendente fim-de-semana de revelações e recriminações, perdão e redenção; um reencontro que mudará as suas vidas para sempre.
Casamento em dezembro é o mais comovente e ambicioso romance de Anita Shreve. Uma incursão na motivação e anseios humanos, escrita com a elegância e a perícia que fazem da autora "uma das melhores romancistas do nosso tempo", nas palavras do Boston Herald.



Natural do Massachusetts, onde ainda hoje reside, Anita Shreve formou-se na Tufts University, foi professora e acabou por enveredar pelo jornalismo após uma das suas histórias ter ganho o O. Henry Prize, em 1975, escrevendo então artigos para revistas como a Quest, Us e Newsweek. Mais tarde, publicou dois livros de não ficção a partir de artigos publicados na The New York Times Magazine. Em 1989, abandonou o jornalismo e dedicou-se apenas à literatura, alcançando um grande sucesso internacional - as suas obras venderam já mais de 7 milhões de exemplares em todo o mundo. Em 1998, recebeu o PEN/L.L. Winship Award e o The New England Book Award para ficção.
 No catálogo da Porto Editora figuram os romances Testemunho (2010) e A Ilha dos Desencontros (2011).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Poema do mês de novembro: Procuro-te




Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

Livro do mês de novembro: "Vertigem assassina", de Nelson DeMille


Depois de um embate com um famigerado terrorista conhecido como O Leopardo, John Corey saiu da Unidade Antiterrorista e regressou a casa, na cidade de Nova Iorque. Arranjou emprego no Grupo de Vigilância Diplomática (DSG). Embora se pense que a nova tarefa de Corey no DSG - vigiar diplomatas russos que trabalham na missão na ONU - é um «trabalho calmo», ele não se importou nada de se livrar das garras do FBI, libertando-se da burocracia da vida de escritório. Corey apercebe-se, contudo, de algo que o Governo dos Estados Unidos deixou escapar: a ameaça bem real de uma Rússia que está a ressurgir.
Clarividente e arrepiante, o novo romance de DeMille leva-nos ao coração de uma nova Guerra Fria, com uma conspiração que tem Manhattan na mira e obriga a um verdadeiro contrarrelógio.

DeMille nasceu na Jamaica (Queens) e reside atualmente em Garden City (Nova York), uma localidade em Long Island. Frequentou a Elmont Memorial High School em Elmont (Nova Iorque), e formou-se na Universidade de Hofstra.
DeMille serviu no Exército dos Estados Unidos como primeiro-tenente, estando em ação na Guerra do Vietnam.
Nelson DeMille construiu uma carreira literária marcada por enormes sucessos mundiais. Sete dos seus livros chegaram ao primeiro lugar do New York Times e da Publishers Weekly, tendo totalizado, em conjunto, 380 semanas na lista dos mais vendidos. É um dos três escritores que mais vendem em todo o Mundo, superando os 100 milhares de exemplares. Os seus romances têm sido amplamente aclamados pelo público e pela crítica.
 Na Marcador, publicou os livros A Ilha do Medo, O Jogo do Leão, Quando a Noite Cai, Fogo Mortal, O Leão, O Jogo do Leopardo, Força Divina e Vertigem Assassina.