sábado, 7 de janeiro de 2012

Poema do mês de janeiro: "Receita de ano novo"


Receita de ano novo 


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
 
...
 Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido)
 
para você ganhar um ano
 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
 
novo
 
até no coração das coisas menos percebidas
 
(a começar pelo seu interior)
 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
 
mas com ele se come, se passeia,
 
se ama, se compreende, se trabalha,
 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
 
não precisa expedir nem receber mensagens
 
(planta recebe mensagens?
 
passa telegramas?)
 


Não precisa
 
fazer lista de boas intenções
 
para arquivá-las na gaveta.
 
Não precisa chorar arrependido
 
pelas besteiras consumidas
 
nem parvamente acreditar
 
que por decreto de esperança
 
a partir de janeiro as coisas mudem
 
e seja tudo claridade, recompensa,
 
justiça entre os homens e as nações,
 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
 
direitos respeitados, começando
 
pelo direito augusto de viver.
 


Para ganhar um Ano Novo
 
que mereça este nome,
 
você, meu caro, tem de merecê-lo,
 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
 
mas tente, experimente, consciente.
 
É dentro de você que o Ano Novo
 
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade


Poema selecionado pela docente Cândida Perpétua

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