sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Dia de S. Valentim

 
 
Se me esqueceres
 
Quero que saibas
uma coisa.
 
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
 
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito

me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
 
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
 
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
 como impura é a luz e a água
 e tudo quanto nasce
 e vive além do tempo.

 Minhas pernas são água,
 as tuas são luz
 e dão a volta ao universo
 quando se enlaçam
 até se tornarem deserto e escuro.
 E eu sofro de te abraçar
 depois de te abraçar para não sofrer.

 E toco-te
 para deixares de ter corpo
 e o meu corpo nasce
 quando se extingue no teu.

 E respiro em ti
 para me sufocar
 e espreito em tua claridade
 para me cegar,
 meu Sol vertido em Lua,
 minha noite alvorecida.

 Tu me bebes
 e eu me converto na tua sede.
 Meus lábios mordem,
 meus dentes beijam,
 minha pele te veste
 e ficas ainda mais despida.

 Pudesse eu ser tu
 E em tua saudade ser a minha própria espera.

 Mas eu deito-me em teu leito
 Quando apenas queria dormir em ti.

 E sonho-te
 Quando ansiava ser um sonho teu.

 E levito, voo de semente,
 para em mim mesmo te plantar
 menos que flor: simples perfume,
 lembrança de pétala sem chão onde tombar.

 Teus olhos inundando os meus
 e a minha vida, já sem leito,
 vai galgando margens
 até tudo ser mar.
 Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"
 

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"
Heterónimo de Fernando Pessoa

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