domingo, 7 de dezembro de 2014

Poema do mês de dezembro


Guerra


Tanto é o sangue

 que os rios desistem de seu ritmo,

 e o oceano delira

 e rejeita as espumas vermelhas.

 
 Tanto é o sangue

 que até a lua se levanta horrível,

 e erra nos lugares serenos,

 sonâmbula de auréolas rubras,

 com o fogo do inferno em suas madeixas.


 Tanta é a morte

 que nem os rostos se conhecem, lado a lado,

 e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

 
 Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...

 Os olhos que já não pestanejam com a poeira...

 As bocas de recados perdidos...

 O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

 

 Tanta é a morte

 que só as almas formariam colunas,

 as almas desprendidas... — e alcançariam as estrelas.

 
 E as máquinas de entranhas abertas,

 e os cadáveres ainda armados,

 e a terra com suas flores ardendo,

 e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,

 e este mar desvairado de incêndios e náufragos,

 e a lua alucinada de seu testemunho,

 e nós e vós, imunes,

 chorando, apenas, sobre fotografias,

— tudo é um natural armar e desarmar de andaimes

 entre tempos vagarosos,

 sonhando arquiteturas.

 

Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'

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